Rubinho Troll

Papo entre Rubs e John Ulhoa

Um skype entre RubsTroll e John Ulhoa sobre os tempos do Sexo Explícito_Julho 2010

Rubs Troll:  A ideia de formar o Sexo Explícito foi anterior ao meu encontro com Jonh. Queríamos fazer alguma coisa para sacudir um pouco Belo Horizonte, que na época era dominada por música instrumental oriunda principalmente do Clube da Esquina e seus orifícios associados. Eu e o Marcelo Dolabela demos os primeiros passos nessa direção.

John: O Dolabela era o letrista intelectual que eu não entendia direito, mas tudo levava a crer que era um gênio e eu respeitava isso. Ele tinha umas letras muito legais e um não-sex-appeal que funcionava de um jeito engraçado no palco: era massa, uma resposta cínica às esquerdas.

John:  A imagem que lembro de Rubs Troll é: putz, essa cara é tipo um demônio incontrolável que gosta do meu som. Dava medo, confesso – eu era um garoto classe média limpinho e o Rubs vinha de outro background. Ficava impressionado com a chamada ‘cultura geral’ do Rubs e do Marcelo.

Rubs : Percebi, desde pequeno, que minha emancipação pessoal teria de vir de alguma atividade intelectual. Já havia trabalhado em muito emprego mal remunerado para saber que trabalho pesado não dava camisa. Como, de fato, meu último emprego antes de formar o SE foi de faxineiro em um prédio comercial da Savassi – onde eu tomava chá de cogumelo e ia trabalhar domingo à tarde.

John
: Na época do SE queria basicamente fazer como qualquer moleque montando banda: reproduzir ao meu modo o som das que eu gostava:  The Clash, B 52’s, Smiths, Talking Heads. Mas, ao reproduzir os sons, sabia ser uma escolha pouco ortodoxa para o gosto mineiro e brasileiro. Por isso, tinha que ser um ‘encontro dos peças raras’ para fazer um som decente.

Rubs : Acho que um pouco de anarquia e ‘atitude’ – afinal, eu tinha uns 20 anos. E também pra atazanar a minha mãe.
Sonia: Você foi sempre autodidata, John?

John: Meu professor de violão era cego. Era muito louco: tentava fazer os acordes e ele de ouvido percebia meus erros… eu pensava: putz, como faz para se chegar a este estágio de percepção musical?… Mas estudo música todos os dias, de mil maneiras diferentes. Aprendi com muita gente: o Rubinho me ensinou a ser cínico em relação aos estilos musicais. O Dudu Marote me ensinou a trabalhar com o Logic Audio, a cuidar do acabamento em produção. A Fernanda (Takai) me ensinou a respeitar a textura de cada voz.

Troll
: O Ayrton Mugnaini nos ensinou que tosqueira também tem o seu lugar…

Sonia: Alguma influência brasileira além do Ayrton?

John
:  Eu gostava do Defalla, Picassos Falsos, Arrigo, Premê, Itamar Assumpção, Língua de Trapo, e o Ayrton. Não muito mais que isso. Ah, e o Patife Band era foda – seus shows deixavam a gente besta.

Troll:  Eu gostava de tudo que era imediatamente identificável como legal,verdades auto-evidentes. Mas gostava mesmo do Sexo explicito. Eu e John falávamos a mesma língua: tipo você vem de Devo que eu vou de Specials…

John
: Mas depois de um tempo em BH, mudamos para São Paulo e…tenho a sensação de que, além dos problemas comuns a todas as bandas e a sempre possível tendência ao não sucesso enfrentado pela maioria delas, perdemos o ‘timing’. Quando finalmente gravamos o vinil, lá por 1990, era a pior época para o rock nacional. Começou uma explosão de ritmos populares como a lambada…

John
:  E o rock só foi pegar de novo em 93, 94, por aí. Quer dizer, era para a gente ter tentado esse movimento antes. Em 1990, todo o cast de rock das gravadoras estava sendo desfeito. E a gente tentando achar nosso espaço… Passamos um ano em SP e fiquei realmente cansado, sem perspectiva – estávamos começando a virar banda ‘underground paulista’. Deus me livre! Já tinha sido isso em BH. Aí saí do loop – tinha que tentar outra coisa.

Sonia
: E depois de 20 e tantos anos, chegamos a este trabalho que Rubs lança agora…

Troll:  A colaboração entre eu e John foi bem harmoniosa e descontraída. Acho que consegui controlar minha natural chatice em um nível que tornasse a conclusão do trabalho possível e com orgulho posso afirmar que consegui.

John:  O Rubs nunca foi chato, pelo menos pra mim.

Rubs: Entendo: assisti os legendários na TV Record…realmente aquilo ali é chato…

John:  Temos essa parceria direta, que é musica e letra, que já acontecia no SE e passou um pouco para o Pato Fu. Mas o Rubs é influência na atitude, na ironia em tratar os assuntos. Para mim é fácil produzir um disco dele – a gente dicorda em pontos técnicos, mas dificilmente no conceito.

Rubs: Stinkin Like a Brazilian não é um disco de música popular brasileira – MPB é um pé no saco (mas não sempre). Eu até tento ouvir, mas de uma forma geral é chata. Coisas que eu gostava são: Egberto Gismonti, Arnaldo Baptista, Arrigo Barnabé, Felline, Scowa, o Mugnaini, Defalla, Picassos Falsos, Ratos de Porão, Black Future, Sepultura, André Abujamra, Taíde e DJ Hum, Último Número… esse tipo de coisa …. Sempre achei, na época, que fazíamos parte dessa ‘legaleza’. Mantivemos o nosso território numa boa no meio dessa gente – acho que nossas músicas eram geniais e se envelheceram bem não serei eu a dizer –  fizemos a nossa loucura do jeito que queríamos fazer…detonamos e ainda estamos ai…nao é lindo?

Edição: Sonia Maia

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  1. […] com John (Pato Fu) é verdadeira e pode render mais frutos no futuro (conversa dos dois aqui: https://rubstrol.wordpress.com/papo-entre-rubs-e-john-ulhoa/). Rubinho mostrou muita vitalidade e humor, com sua prosódia estranha e um sotaque de gringo […]

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